sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O silêncio ruralista diante da crise da água, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

Chama a atenção o silêncio tumular dos ruralistas diante da crise da água brasileira. Ela está vinculada ao desmatamento, a erosão da biodiversidade e a compactação dos solos. O ciclo das águas é uma teia de relações complexas que permite sua fluência e a existência da vida.
Havia um Código Florestal que defendia as áreas de florestas necessárias para preservar o ciclo das águas. Mas, ele não era obedecido. Como a desobediência dos ruralistas – e imobiliárias – eram crimes, então mudaram o código para que suas ações não fossem mais motivo de punição.
Hoje cientistas dizem que grande parte do ciclo das águas brasileiras tem origem na evapotranspiração da floresta Amazônica (Antônio Nobre), mas que depende do Cerrado para penetrar no solo e abastecer os aquíferos que sustentam grande parte da malha hídrica brasileira que se origina no Planalto Central (José Alves da UNIVASF e Altair Salles da PUC/Goiânia).
Ora, o setor ruralista está quebrando a dinâmica da floresta Amazônica e compactando o Cerrado pela força do desmatamento. O Cerrado não tem poder de regeneração.
Kátia Abreu disse que “desmatamos por uma das agriculturas mais produtivas” (UOL, 15/12/15). Portanto, assume que desmata, portanto, que quebra o ciclo de nossas águas.
Aqui no vale do São Francisco há uma guerra surda entre os vários setores da produção – principalmente irrigação e energia – pelo que resta de água no São Francisco. Entretanto, o São Francisco é um rio dependente do Cerrado. Sem os aquíferos do Cerrado, particularmente o Urucuia, não existe São Francisco.
Então, senadora, a equação não fecha. Sem água não há agricultura, mas sem vegetação não há água. O equilíbrio entre todos esses fatores que o agronegócio desconhece ou ignora. Mas, quem no mundo ruralista está disposto a pensar a atividade agrícola na sua complexidade de fatores e não de forma simplista em favor de uma economia imediatista?
Não há agricultura sustentável sem a permanência das florestas, sem a preservação dos solos e do ciclo das águas.
O silêncio ruralista sobre a crise da água não é casual.
Comentário - Eu concordo Roberto Malvezzi "Havia um Código Florestal que defendia as áreas de florestas necessárias para preservar o ciclo das águas. Mas, ele não era obedecido".
Eu trabalhei com esse código por mais de duas décadas e o aplicava contra aqueles que o infringiam. Eu fazia o início ou a minha parte, mas na sequência a responsabilização evaporava por força de "N" recursos. O tempo foi passando e as florestas que evapotranspiravam e produziam água foram sendo desmilinguidas pelos empreendedores do agronegócio. Sinceramente, eu acho que o poço da esperança vai secar e não adiantará aprofundá-lo, vez que o lençol freático das responsabilidades está sendo extinto. Parabéns por seu artigo. Abraços. (jgh)  

Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua
Roberto Malvezzi (Gogó)na Equipe CPP/CPT do São Francisco.  
in EcoDebate, 17/12/2015 
grifos são meus 

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