terça-feira, 22 de setembro de 2015

Só pra lembrar, Estado e Governo não são sinônimos, artigo de Montserrat Martins

COMENTANDO, PARÁGRAFO POR PARÁGRAFO


Se uma criança faltar aulas uma semana, sua família recebe uma visita do serviço social. Isso na Inglaterra, onde também é exemplar o serviço de saúde comunitário, que não corre risco de parar quando muda o governo, pois já está incorporado como uma política pública de Estado.
Se os políticos brasileiros fossem capazes de copiar os ingleses e se o serviço de saúde fosse bom, não precisaria mudar ministro, secretários nos estados e municípios.
Faz muita falta ao Brasil essa cultura de diferenciar o governo do Estado, pois aqui prevalece a prática personalista de cada governo mudar tudo, sem dar continuidade aos bons programas do serviço público, nem preservar os interesses da sociedade.
Sim, faz muita falta ao Brasil, vez que aqui predomina o compadrio, ou seja, se muda o padrinho, (governo) automaticamente, mudam-se os afilhados.
Na economia a mesma coisa, como vamos mudar nosso perfil de país dependente de ‘commodities’, de venda de matérias-primas, se não temos uma política de longo prazo? Ao invés de um planejamento para as próximas décadas, nossa política é movida pelo calendário eleitoral de curto prazo, imediatista, onde só vale o que der resultado a tempo de vencer as próximas eleições.
Eu sugeriria para que implantassem no Brasil uma Agência Reguladora das exportações, especialmente, com relação aos produtos derivados do agronegócio. Justifico: se é o povo (BNDES) quem banca os financiamentos, racional seria, primeiro atender a demanda interna, o que sobrou seria negociado.
Os brasileiros parecem não saber que o governo não é dono do Estado, que por sua vez não é dono da sociedade. Ao contrário, o papel do governo é servir ao Estado e, através desse, à sociedade. O que a Inglaterra tem de mais invejável, além de seus serviços sociais e de saúde, são esses conceitos claros do que é governo, Estado e sociedade. Paradoxalmente, preservaram a figura da monarquia mas de modo figurativo e apartada do governo, daí a expressão “rainha da Inglaterra” para descrever quem não manda nada. É um negócio turístico, hoje, de onde possivelmente se deriva também a expressão “pra inglês ver”, de algo meramente simbólico. Talvez tenha sido o modo didático de lembrarem que algo permanece, o Estado, que se diferencia do governo do primeiro-ministro.
Eu sugeriria às redes de televisão do Brasil para que criassem programas educativos, esses dariam ênfases a cidadania. Desta feita, as crianças e adultos que não tiveram esse privilégio nas escolas aprenderiam. Ou seja, seria uma forma de compensar a ausência dos governos na educação.
Aqui se diz que alguém é “rei do pedaço” quando manda em tudo, controla um território eleitoral, do tráfico de drogas ou de milícias, variantes do poder territorial no Brasil, que aliás podem andar juntos, como mostrou “Tropa de Elite 2”. Nossa cultura política se formou e se mantém até hoje com o espírito das Capitanias Hereditárias, territórios doados pelo Rei para particulares serem seus donos.
Verdade, no geral, a política brasileira preserva o modelo das capitanias hereditárias e pelo que se vê são muitos os Marqueses de Pombal. Mais ou menos assim: o modelo das capitanias hereditárias se constituiu numa Reforma Agrária aos apadrinhados e talvez por isso não tem sucesso a reforma Agrária proposta nas campanhas eleitorais. E as margens das estradas continuam lotadas de barracas do MST.
Em contraste com nossa Constituição Federal evoluída, temos uma cultura política atrasada, pois a mentalidade popular não assimilou ainda as conquistas civilizatórias. Discutimos política como quem discute quem vão ser os nossos donos, não os nossos servidores.
O povo se acostuma com a dependência de um governo propositadamente paternalista, ou seja, se acostuma ou vicia. O quê fazer? Reeducar, reeducar e reeducar.
Isso explica a demonização dos políticos dos partidos contrários, pois diante da omissão social seus poderes se tornam absolutos, de fazer e desfazer tudo. Numa democracia constitucional ninguém tem tantos poderes, quando a população conhece os seus direitos.
A denomização dos políticos contrários ocorre por conta da ansiedade por um naco do bolo, pois, políticos da situação, não perdem, nem mesmo as migalhas.
O que as pessoas pensam não depende das leis escritas, mas daquilo que elas veem acontecer. Por outro lado, só acontece aquilo que a sociedade permite que aconteça, e é isso que se chama cultura política
Desculpe, Montserrat Martins, mas o paternalismo bloqueia, aniquila e desmilingui, isto é, a sociedade composta por um povo mal educado, dificilmente, terá forças para reagir.
Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é médico psiquiatra, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e presidente do IGS – Instituto Gaúcho da Sustentabilidade. in EcoDebate, 21/09/2015

Doutor, Montserrat Martins desculpe por comentar parágrafo por parágrafo. Justifico: se o fiz, foi pela relevância do contexto. Forte abraço.


Nenhum comentário: