terça-feira, 14 de janeiro de 2014

No ‘rolezinho’ em Itaquera (SP), PM dizia a quem passava: ‘Vou arrebentar você’

                               Reprodução/Twitter/R7
No estacionamento do shopping 
Metrô Itaquera, 11 jovens de bermudas coloridas e tênis chamativos estavam sendo revistados. Tinham um olhar vazio e sem expressão; cederam as mochilas, os documentos e explicaram o que tinham ido fazer ali: dar um “rolezinho”.

A reportagem é de Vanessa Barbara e publicada no jornal Folha de S. Paulo, 13-01-2014.

O tenente encarregado da operação não encontrou nada de ilícito nos pertences dos jovens, a maioria negros e menores de idade. Explicou que a polícia estava abordando pessoas que pudessem ter ido para o evento, pois tinha um mandado de proibição.
Anotaram nome e endereço de todos e avisaram que, se causassem tumulto, seriam multados em R$ 10 mil.
Os adolescentes não me olhavam nos olhos e pareciam resignados. “Não vou embora não, quero ir ao cinema”, disse Rodney Batista, 20. No grupo de 11, só um tinha o olhar duro de quem estava engolindo a raiva.
Não vi ninguém com armas; ninguém roubando, depredando ou fazendo arrastão. Ainda assim, os lojistas entraram em pânico.
Segundo a opinião pública, são bandidos com histórico de crimes; no melhor dos casos, vagabundos que vão lá tumultuar, cometer delitos e assustar “gente de bem”.
São tratados como tais pelas autoridades: passando pelo corredor, um policial repetia no ouvido de todos: “Vou arrebentar vocês, vou arrebentar” – e plaf, deu um chute em um menino.
Pedi: “Licença, gostaria de saber o nome do senhor, ouvi o que o senhor disse e vi o que fez”, ao que ele tirou a etiqueta de identificação e escondeu no bolso. Insisti em saber o nome, tentei tirar uma foto, recorri ao tenente e falei com outros policiais – todos identificados.
Mas me acovardei e pensei que ele poderia ter ficado assustado por ter sido flagrado, que talvez tenha sido um momento do qual se arrependeu… Pensei também que arrogar qualquer tipo de coisa – “Sou da imprensa, olha só o meu crachá lustroso” – me rebaixaria ao nível dele, que usou do poder para fazer algo contra alguém mais fraco.
Vi gente filmando e sendo obrigada a apagar o arquivo, e a imprensa foi orientada a não registrar o que ocorria.
A gente fica só imaginando o que não devem fazer quando ninguém está realmente olhando.
(EcoDebate, 14/01/2014) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]  

Comentário:

Eu presumo que sob o ponto de vista do "jornalismo", os policiais nem deveriam ir ao shopping por conta dos rolezinhos, pois os jovens estariam apenas se divertindo ou se entretendo. Quanto aqueles jovens que aproveitam do evento para surrupiar das lojas aquilo que não lhes pertencem, certamente, teriam total liberdade. Ou: considerando que o jornalismo é contrário a forma como se comporta o policiamento, por que não interagir com a polícia apresentando sugestões de como impedir os prejuízos àqueles que tem o direito ao trabalho? As sugestões sempre serão bem-vindas, de repente, a união de ideias ou esforço conjunto possam formatar soluções aos problemas de Segurança Pública, esta se constitui num dever de todos. (JGH)

Um comentário:

Jorge G Hipólito disse...

Normalmente, quando um evento apresenta suscetibilidade a prejuízos diversos a quem dele não participa, cumpre ao policiamento interagir, inspecionar/vistoriar aqueles diretamente envolvidos ou próximos. Se os inspecionados/vistoriados nada de anormal fizeram, sem problemas, ou seja, desculpem-nos pelos transtornos. Agora, se fizeram algo errado, notadamente, deverão arcar com as consequências. A polícia não sente prazer em conduzir pessoas à delegacia. Ou: melhor seria se nada de irregular houvesse, infelizmente, isso jamais acontecerá, pois se assim fosse, viveríamos em plena harmonia.