terça-feira, 7 de agosto de 2012

REFLEXÃO - "ATIVIDADE DELEGADA"

1974 - eu presto concurso para ingresso na Polícia Militar do Estado de São Paulo. 1975 - convocam-me para início do Curso de Formação - 3º BPM - Ribeirão Preto. Iniciado o curso, eu procuro interagir com policiais antigos, em princípio para ouvir histórias de vida. Obs.: na época não se usava o termo “interagir”. Os assuntos eram diversos, mas inclinávamos para comentar sobre salários. O policial mais antigo disse que estava para completar 30 anos de serviço e que sempre manteve a esperança de um salário que fosse digno e coerente com a profissão. Ele enfatizava que o salário precisava ser motivador, pois policiais nunca sabem se voltam para casa ou se a família o encontrará no velório municipal. Ou: talvez num hospital ou numa cadeira de rodas. Ele ressaltou que aposentaria com a esperança de que o próximo governador pudesse ser melhor que o anterior. Sinceramente, eu fiquei triste quando desse comentário, na verdade, eu relutava acreditar no desabafo do mais antigo.

2003 - eu me aposento, ou seja, antecipo aposentadoria por ter averbado tempo de serviço. 2012 - eu vejo policiais firmando convênio “Atividade Delegada” com os municípios. Eu não tenho dúvidas de que os colegas são só sorrisos, vez que complementarão seus salários. Eu não posso criticá-los por desejarem melhor qualidade de vida, eles merecem. Entretanto, eu fico a imaginar, será que os comandantes se preocupam com os policiais aposentados? Será que há interesse por parte do governo em saber como está a qualidade de vida dos policiais idosos? Na verdade temos policiais sexagenários, septuagenários, octogenários e até nonagenários. Ressalte-se, quanto mais idade, mais cuidados se requer para a manutenção da saúde.

E mais, quando do ingresso na Corporação faziam constar nos editais: assistência médica, hospitalar e odontológica ao policial, bem como aos familiares. Óbvio com relação aos dependentes haviam limites por conta da idade e exceções quando esses estivessem solteiros e cursando universidades. Obs.: hoje, "policiais pagam planos de saúde e muitos deles com desconto automático em folha. Se o estado mantivesse o compromisso disposto nos editais ou se pelo menos subsidiasse o custo com a saúde, já melhoraria os sorrisos dos velhinhos". Sim, os mesmos que no passado foram jovens e que enfrentaram maiores dificuldades no sentido de dar proteção a Sociedade Paulista.

No início da minha reflexão, eu comentei sobre o policial que se aposentava ainda cheio de esperança. Eu iniciava, mas passaram mais 30 anos e também me aposentei, aliás, o tempo urge nessa nossa vida - na verdade - já fez 9 anos de minha aposentadoria. Bem nesse caso, se somando os 30 anos do policial antigo, mais os meus 30 e mais os 9 que se passaram, totalizariam 69 anos. Concluindo, os 69 anos de fé e esperança criam estrutura para que policiais idosos se adaptem ao isolamento, ou seja, evitemos as rusgas, bem como as rugas, haja vista que o próximo governo pode estar num horizonte longínquo por demais da conta. 


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