sábado, 8 de janeiro de 2011

Estudo mostra condições precárias de trabalho nos canaviais paulistas

06/01/2011 - 04h01
Estudo mostra condições precárias de trabalho nos canaviais paulistas 
Por Bruno Bocchini, da Agência Brasil
São Paulo – Um estudo feito pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo mostra que as condições de trabalho nas lavouras paulistas de cana-de-açúcar são precárias. A pesquisa tomou como base as inspeções coordenadas pela Vigilância Sanitária Estadual. De acordo com o levantamento, o trabalho de corte na maioria das lavouras de cana-de-açúcar ainda é feito manualmente, repetitivo e exaustivo. O trabalhador é submetido, a cada um minuto trabalhado, a 17 flexões de tronco, e tem de aplicar 54 golpes de facão. Segundo a pesquisa, o joelho do cortador fica todo o tempo semiflexionado, e há extensão da coluna cervical. O estudo mostra também que não há sombra nos canaviais e o trabalhador não se hidrata adequadamente. Por dia, são cortadas e carregadas, por empregado, em média, 12 toneladas de cana, e percorrido um percurso de quase 9 quilômetros. O levantamento constatou que, no fim de um dia de trabalho, o cortador perde 8 litros de água.
A pesquisa da secretaria mostra ainda que, quanto à alimentação, os empregados não dispõem de local adequado para as refeições, que são acondicionadas e servidas em recipientes inadequados. Enquanto trabalham, os cortadores carregam consigo suas marmitas. Muitas vezes, o alimento fermenta ou azeda. Porém, como o trabalho consome muita energia, eles acabam consumindo a comida mesmo que esteja estragada”, diz o texto da Secretaria de Saúde.
O estudo constatou ainda que, apesar da cana-de-açúcar ter uma indústria altamente lucrativa, as condições de trabalho oferecidas são, geralmente, de qualidade ruim, “colocando em risco a saúde dos trabalhadores”. Para a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), que representa os usineiros, as informações da Secretaria de Saúde contêm erros e conclusões equivocadas, “distantes tanto da realidade do setor quanto das posturas que o setor vem adotando há vários anos”. Entre os diversos erros da pesquisa, de acordo com a nota da única, está o dado que mostra que a cana-de-açúcar é cortada manualmente na grande maioria das lavouras. Na verdade, mais de 60% da cana em São Paulo são colhida mecanicamente e sem uso de fogo”, diz a entidade.
Segundo a Única, o índice de corte sem fogo cresce a cada ano, como determina um protocolo agroambiental, assinado em 2007 pelo setor sucroenergético e o governo do estado de São Paulo. O Protocolo prevê o fim da queima, e consequentemente do corte manual de cana em São Paulo, até 2014, em áreas mecanizáveis, que representam a maior parte do cultivo da cana no estado”. De acordo com a Unica, não há descumprimento de obrigações legais, como o não uso de equipamentos de proteção individual e a falta de água fresca. A entidade e suas indústrias associadas são comprometidas com o cumprimento das leis vigentes. Havendo qualquer registro de não cumprimento, a obrigação da secretaria é tomar as devidas providências com relação à empresa envolvida, inclusive garantindo à empresa o direito constitucional de defesa, o que não ocorre quando a autoridade pública opta por primeiro disseminar generalizações que atingem injusta e levianamente todo um setor”.
Edição: Aécio Amado
(Envolverde/Agência Brasil)
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Jorge Gerônimo Hipólito - disse:
As condições sempre foram precárias. Eu posso assim afirmar, pois, nos últimos quatro anos da década de sessenta, suportei situação análoga. Eu trabalhava de diarista rural (bóia fria) no plantio de capim, raleando algodão, arrancando raízes das árvores de mata atlãntica que foram cortadas para dar espaço a agropecuária, na colheita de arroz, milho, feijão, café, amendoim etc. Carteira assinada, nem pensar, isso nem era cogitado; horário de trabalho: do nascente ao poente. Na minha opinião ralear o algodão é tão crucial quanto ao corte de cana-de-açúcar, pois, o trabalhador flexiona o tronco para retirar com as mãos, as mudinhas em excesso. Quando isso ocorre, elas tem no máximo 20 cm de altura. As dores surgem nos joelhos, nos rins e na L4 e L5. Ás vezes é preciso ajoelhar por causa da intensidade da dor. Na época, o gerente do serviço não admitia interrupção, do contrário, no outro dia, o trabalhador estaria dispensado.
Certa vez, eu por não suportar mais a dor tomei a decisão e fui me deitar sob a sombra da única árvore existente, numa área de algodão de mais ou menos 50 hectares. Obs.: naquela época, já havia carência de árvores. O primeiro a chegar junto a mim foi meu pai e o segundo foi o gerente, esse bravo comigo e com o meu pai. A região lombar, se encontrava inchada, a dor era intensa e não havia primeiros socorros. Na verdade, não cogitava essa possibilidade. Bem, os relatos seriam muitos, no entanto, prefiro parar por aqui, vez que a minha intenção busca apenas mostrar que nos últimos 40 ou 50 anos, os trabalhadores rurais viveram a margem do direito e da justiça social.

Um comentário:

Blog do Jorge Hipólito disse...

A INJUSTIÇA SOCIAL revolta a alma que sofre, vez que o homem trabalhador se vê impotente frente a grandeza do empreendedor. Normalmente, homens pobres são mais emotivos e choram por qualquer coisa, aos olhos de outros. Os olhos de quem chora refletem a alma, essa produz as lágrimas incompreendidas por aqueles outros trabalhadores que tem a missão precipua de corrigir comportamentos. Infelizmente, ao longo do tempo a JUSTIÇA não consegue transpor os muros dos interesses corporativos. Por conseguinte, as gerações de homens pobres fecham os ciclos e assim vai se produzindo a história dos bastidores da 'ORDEM E PROGRESSO'.