quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Os Meninos de Ontem



Inhambu-xintã
pt.wikipedia.org/wiki/Inhambu-xintã

Não faz muito tempo em que São José do Rio Preto era conhecido como a “Boca do Sertão”. A distância até a divisa com Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Paraná era coberta por vegetação predominante de mata atlântica. Mas, o inevitável progresso avançou de forma impiedosa, onde os homens mais pareciam gafanhotos famintos, não por folhas, mas sim por terras férteis, essas há séculos cobertas pela manta florestal, ou serapilheira. Dos capoeirões restaram capoeiras e dessas as capoeirinhas. As matas ciliares, pouquíssimas, ainda cobrem as partes de alguns corpos d’água impedindo que fiquem nus e se sintam constrangidos diante da frágil mãe natureza.

O efeito dominó levou de roldão os peixes dos rios, dos córregos e dos ribeirões. Há se Deus pudesse ouvir as preces dos muitos homens idosos que a muito foram crianças e que pelas mãos dos pais caminharam pelas trilhas ouvindo os causos que deram porte ao folclore regional. Quantas vezes, os pais ensinaram os filhos a pescar os bagres amarelos. Na verdade, nem precisavam fisgá-los, eles, os bagres, ficavam felizes e lá do fundo do rio observavam o brilho nos olhos dos meninos e pensavam, vamos cumprir com nossa função. O anzol se aproximava junto ao leito barrento com minhoca desesperada para não morrer afogada. Na verdade morria de apenas uma bocanhada o que fazia emborcar a vara de bambu. O menino puxava tão forte que, às vezes, o bagre ficava pendurado bem no alto da copa do ingá. Com uma hora e meia de pesca a fieira já estava lotada. O menino dizia pronto, já temos a mistura para o jantar. Enquanto pescavam, ouviam os pios dos inhambus, às vezes do xintã, guaçu ou chororó. Eles, juntamente, com as codornas, juritis e pombas carijós faziam a sinfonia do entardecer.

Quantas saudades daquele mundo simples, onde a simplicidade consistia na maior das riquezas. Engraçado, naquela época, não se falava em drogas e nem de violência. Os vizinhos se tornavam compadres e faziam bailes e festas, onde todos levavam prendas. As crianças brincavam com bombinhas, traques e buscapés e os homens soltavam rojões. Hoje, os meninos nem sabem que isso acontecia, eles não conhecem bagres, nem xintã, guaçu ou chororó. Muitos meninos nunca ouviram causos de assombração, lobisomem, saci-pererê ou mula sem cabeça. Os cursos d’água estão quase que totalmente despidos, mas o pior é que o entardecer emudeceu e isso ocorreu por causa do medo dos gafanhotos, digo, dos homens famintos por mais um bocado de terra, desde que não existam árvores. Ás árvores possibilita aves, rios e os peixes. E mais, possibilitou felicidades aos meninos que hoje são avôs e bisavôs e que contam histórias que eles mesmos criaram, porque as vivenciaram.

Um comentário:

Fabricio disse...

Tempo bom esse.

Não pelas dificuldades, mas sim pela humildade e simplicidade das pessoas.

Música caipira, muitos causos e contos.

Se cada um de nós fizer-mos nossa parte, o mundo caminha-rá pelo rumo certo.

Fabricio Nunes Pinheiro