segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

AMBULANTES DA VIDA A MARGEM DA ORDEM E DO PROGRESSO



Todos os dias, dezenas e/ou centenas de famílias chegam às mais importantes cidades brasileiras, especialmente, aquelas que compõem o nosso litoral. Essas famílias, a maioria, procede de cidades humildes. A esperança de uma vida melhor consiste no principal fator motivador. Infelizmente, ao desembarcar na rodoviária, já vislumbram um enorme ponto de interrogação, ou seja, e agora? Marido e esposa entreolham, e disfarçadamente, olham para os filhos e sem dizerem nada, pensam: o quê será de nós?

Num primeiro momento caminham pelo calçadão da praia e se deleitam com os surfistas, as moças bonitas e com o cheiro do mar. Olham para cima e veem o Cristo Redentor de braços abertos, como sempre. Na medida em que veem o Cristo, os olhos lacrimejam, o coração fica apertado e isso reforça ainda mais a esperança. No bolso do chefe de família, apenas alguns trocados que restaram do pagamento das passagens. Lamentavelmente, não compraram passagem de volta. Ali mesmo na calçada comem alguns salgadinhos e ao mesmo tempo contemplam os luxuosos hotéis, onde o acesso é restrito, sem barreira física, uma vez que a barreira é psicológica, isto é, ali não é lugar para pobre.

Seguindo o caminho que lhes resta e não o escolhido, seguem adiante até não agüentar mais e chegam num local, onde as casas são simples, muitas com paredes de papelão. Incrível, mas naquele momento a casa de papelão parece ser um castelo, se levar em conta a relevância de se abrigar mulher e filhos. O problema é que eles ainda não têm uma casa daquelas e para ter, de início será preciso negociar. Mas negociar com quem?

As dificuldades são incomensuráveis, os filhos choram, a mãe os confortam até que alguém cede um espaço suficiente para passarem a noite, porém com uma condição, a de vender coco–da-baia como forma de pagamento. Condição aceita, vez que na verdade, isso pode se transformar num primeiro emprego. E o homem trabalha muito e supera a expectativa do primeiro “patrão”. O iniciante vendeu mais de 100 cocos. Esse sucesso provoca o convite a continuar, com a seguinte proposta: a cada coco vendido uma comissão de R$ 0,10, porém com uma observação, ao final do mês deverá pagar R$ 150,00 de aluguel do barraco.

O problema é que são muitos os vendedores de coco e a concorrência é imensa, mesmo assim, o migrante continua e ao final do mês consegue os seus sagrados R$ 300,00. Pobre, porém honesto, já devolve os R$150,00 e fica com o restante que deverá ser suficiente para a compra do arroz, feijão e toucinho para passar o mês. E assim, a vida segue pelos atalhos. As crianças começam a vender picolés, escola nem pensar. A mãe lava roupas e de vez em quando faz faxinas nas casas de alguns menos pobres. Tudo indica que mais adiante, as coisas podem melhorar, afinal, a família de migrantes e/ou de refugiados ambientais vai se adaptando ao ambiente. Detalhes, da janelinha do barraco passam alguns minutos admirando o morro, esse, muito verde e composto por árvores de mata atlântica, às vezes, nuvens brancas fazem a decoração. Estupenda a paisagem!

Infelizmente, numa época de verão, onde ocorrem chuvas demoradas e torrenciais, o vendedor de cocos ao retornar para casa, não a encontra - o morro desmoronou sobre os barracos. Por sorte, depois de muitas lágrimas, o ambulante é surpreendido com a família também retornando do trabalho. Dali do pé daquele morro, o ambulante olha para o outro morro e diz: Senhor, obrigado por nos salvar. Marido e esposa entreolham e sem disfarçar olham para os filhos dizendo: meus filhos, hoje, nem malas temos, pois tudo está soterrado, mas a diária de hoje, talvez dê para comprar a passagem de volta. Portanto, vamos voltar para onde nunca deveríamos ter saído.

No caminho, a família não olhou para a praia e nem mesmo para os surfistas e as moças bonitas, não sentiu o cheiro do mar, não olhou para os luxuosos hotéis e nem ao menos sentiu vontade de transpor as barreiras. Destarte, sentiram sim a enorme ausência de governo, pois se estivesse presente, certamente, aquela tragédia não teria ocorrido. E mais, para onde voltavam haveria apenas uma pequena diferença, lá não há morros que desmoronam, mas há também a ausência de governo o que faz desmoronar a estrutura de homens pobres e trabalhadores.


Obs.: Quando o Estado é forte, o indivíduo-cidadão e a sociedade como um todo são fracos. Quando o indivíduo-cidadão e a sociedade são fortes, o Estado é ético, justo, baseado na tripartição dos poderes e na supremacia da lei; Estado federal mínimo, a serviço do indivíduo, garantindo justiça, segurança, ensino e saúde básicos; Estado defensor da liberdade de expressão; Estado próximo ao cidadão, fortalecendo os municípios e os estados federados.

Um comentário:

reginaldo disse...

Sinto-me de mãos atadas diante de tamanha e bem detalhada situação.