quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Extração de Areia e a Desova dos Peixes




Tempos atrás, na região de São José do Rio Preto, alguns pescadores reclamavam da extração de areia em leito de rio no período de piracema. Por conta da expectativa dos pescadores fui à busca de resposta e foi difícil, no entanto, acredito tê-la encontrado. Portanto, aqueles que estiverem interessados queiram atentar para o artigo que segue abaixo.
Não sei se consigo responder totalmente a pergunta sobre se ocorre mortalidade de ovos de peixes devido à retirada de areia durante o período de defeso. Com relação a peixes migradores, estes em geral (pelo menos na região do Alto rio Paraná), desovam nas cabeceiras de médios e grandes tributários (a exceção do grupo dos armados, que desova no rio principal, no caso o rio Paraná), não tem cuidado algum com a prole e em dois ou três dias (dependendo da temperatura da água), ocorre à eclosão da larva, que em menos de 48h absorve o saco vitelínico e inicia a alimentação, geralmente fito e zooplancton.
O melhor habitat para uma taxa de sobrevivência significativa (cerca de 1%) são as lagoas marginais, que em geral ocorrem na foz destes tributários (dependendo da geografia de cada rio). Tendo em vista que o período de reprodução coincide com o período de chuvas, os rios extravasam, levando estas larvas para as lagoas, onde a chance de sobrevivência é maior (áreas rasas, onde encontram alimento e em geral não há muitos predadores de porte).
Após um ano ou dois (dependendo da espécie e das condições ambientais), em nova cheia, os jovens (um ou dois anos) já não encontram seu alimento em quantidade suficiente no ambiente de lagoas e "aproveitam" a nova cheia, para ocuparem o rio principal e se deslocarem para áreas de alimentação (que incluem os reservatórios).
Ou seja, não há tempo para ovos de espécies migradoras atingirem a áreas lênticas de reservatórios (já são pelo menos larvas), e reservatórios não são um ambiente muito propício para desenvolvimento de formas jovens de peixes migratórios que não cuidam de sua prole. Ou seja, larvas e alevinos de migradores não encontram alimento suficiente e ficam expostos a maior predação nestes ambientes. Lembre-se de que peixes não migradores como o cará, joaninha e tucunaré fazem ninho e apresentam cuidado com a prole nos primeiros meses. Quando capturamos larvas e alevinos de migradores no reservatório de Itaipu, estas estão sempre em áreas rasas próximas a margem, sendo pouco abundantes nas áreas lênticas.
Em resumo, independente da ação das captações de areia, as chances de sobrevivência de larvas e alevinos de migradores em reservatórios são pequenas, por isso os ambientes preservados e que possuem lagoas e várzeas são importantes para o recrutamento de espécies migradoras.
Desconheço estudos realizados sobre mortalidade de jovens de espécies migradoras por captação de areia, o que sei, (estudos do LACTEC de Curitiba), é que a extração de areia e o envio desta (ainda molhada), para construção de praias em outras bacias, é um importante foco de dispersão do mexilhão dourado (é possível que a chegada no rio Iguaçu tenha tido influência do transporte de areia para colocação em praias artificiais).
Considerando o exposto acima posso concluir que os peixes de água doce escolhem águas rasas e em especial as lagoas marginais dos tributários como áreas de berçários naturais. Desta forma, é imprescindível investir na preservação dos tributários, pois são eles que garantem a preservação e o recrutamento das espécies migradoras. Entretanto, se houver dúvidas com relação a prejuízos causados pela extração de areia, restará à autoridade ou técnico inspecionar os portos de areia para conferir se há presença de larvas de peixes migradores na areia retirada. Especialistas em ictioplancton (Universidade de Maringá e UNIOESTE de Toledo) já conseguem identificar todos os estágios larvais das principais espécies migradoras da Bacia do Paraná.
Fonte: Domingo Rodriguez Fernandez

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