segunda-feira, 16 de novembro de 2009

CAÇADORES DO ALÉM


Certa vez, por volta da meia noite policiais faziam patrulhamento ambiental com vistas a caçadores no Rio Turvo, município de Nova Granada, quando perceberam dois caçadores na margem esquerda. O momento foi de grande expectativa, pois, eles não perceberam que os policiais se aproximavam, talvez, porque estivessem com o motor desligado e navegando com remos e no escuro. O que fazer? A correnteza já havia conduzido a embarcação aproximadamente cinqüenta metros à frente dos caçadores, mas, nessa circunstância os policiais precisavam se distanciar um pouco mais, talvez, cento e cinqüenta metros. Com a ajuda dos remos e sem batê-los na borda da embarcação se distanciaram. Detalhe: se durante a noite o marinheiro bater o remo na borda da embarcação o som produzido será ouvido a alguns quilômetros. Na embarcação estavam Jota, Getúlio e Tadeu. Por precaução, Jota amarrou muito bem a embarcação no tronco de um jenipapeiro e retirou da embarcação a mangueira que conduz o combustível ao motor, bem como, os três remos e os escondeu numa moita de malícia. Agachados junto ao tronco de uma figueira branca aguardaram os dois caçadores que se aproximavam. Nessas circunstâncias, o mais importante é o fator surpresa e, normalmente, os caçadores fogem e quando fogem, correm e correm muito, se faz necessário alcançá-los em cem metros rasos, do contrário fica difícil. Eles conhecem o caminho, como se diz no popular “como as palmas das mãos”.

Adrenalina estava a mil, corações acelerados, de repente, Jota sentiu um arrepio que foi dos pés a cabeça, pensou: meu Deus que coisa esquisita, mas, não falou nada aos seus colegas.  Os caçadores ao se aproximarem perceberam a presença dos policiais ambientais e já saíram correndo, automaticamente, os policiais saíram no encalço. A mata ciliar naquele trecho tinha aproximadamente oitenta metros de largura, depois era um descampado. Os caçadores estavam a trinta metros a frente dos policiais quando Jota gritou aos companheiros: não desistam, vamos alcançá-los! De repente, depararam com uma cerca de arame farpado, dessas de sete fios e muito difícil de passar. O mais fácil seria pular a cerca. Eles pularam a cerca, no entanto, acharam muito estranho, pois estavam próximos e parecia que para os caçadores não havia cerca, bem, sabe-se lá. A corrida continuou e perceberam que havia uma casa a mais ou menos trezentos metros, com certeza para lá se dirigiam os caçadores. Esses entraram na casa e os policiais ambientais ficaram do lado de fora. E agora? O relógio marcava 01h00min, a lei não permite entrar na casa de alguém durante a noite a não ser em caso de incêndio ou para atender uma solicitação de socorro. Os policiais assim combinaram: o Getúlio ficaria no lado de trás da casa, o Tadeu na lateral direita e Jota com a frente e lateral esquerda. No interior da casa um lampião mantinha uma luz fraca e avermelhada. Do lado de fora Jota chamou: oh de casa queremos falar com vocês! Ninguém respondeu, mais ouviram passos no porão de madeira velha. A impressão que se tinha é a de que a casa estivesse abandonada. Ninguém saía e ninguém respondia. Os policiais teriam que aguardar até o dia amanhecer, pois, desistir, jamais, esse era o lema. Nessa época, não havia rádio que auxiliasse os contatos com a outra patrulha que os aguardava a, aproximadamente, vinte e cinco quilômetros. Nessa operação havia duas embarcações, a do Jota que descia o Rio Turvo da ponte de Onda Verde até a ponte do 45 e a outra que subia o mesmo rio da ponte de Orindiuva até a ponte do 45. Ponte do 45, significa a distância entre São José do Rio Preto e a ponte do Rio Turvo pela BR 153.

O homem deve ser responsável pelo que faz e se errar deve assumir o erro, pensou Jota, assim, considerando a hipótese de que ninguém morava naquela casa, subentendeu que os caçadores a invadiram; chamou os companheiros e comunicou-lhes para que ficassem atentos, porque já havia decidido entrar na casa. O risco era grande, pois, não se sabia que armas os caçadores estavam usando, poderia ser calibre doze ou até mesmo carabina. Os policiais portavam apenas os trinta e oito. Dentro da casa mais alguns passos, silêncio, luz quase apagando. Jota olhou para o Getúlio e disse: dê-me cobertura vou entrar; Tadeu observe se alguém sai da casa! Pronto, Jota correu em direção a porta com bastante energia e saltou com os dois pés, a porta muito velha se espatifou e ele também, pois, não imaginava que fosse tão frágil. Dentro da casa no momento em que caia, rolou para a parte mais escura e ficou na expectativa de alguma reação e nada. Nenhuma voz ou movimento. Levantou com muito cuidado e foi entrando em outros cômodos, nesse caso eram dois dormitórios, sala e cozinha. Novamente aquele arrepio pelo corpo inteiro. Meu Deus! Não havia ninguém na casa. Na casa havia duas portas, a da sala por onde Jota entrou e a da cozinha que se encontrava com taramela. O único lugar onde alguém poderia se esconder seria no guarda-roupa. Impossível, estava todo quebrado com teias de aranha, pernilongos e baratas. No porão, sem chances, uma vez que o assoalho antigo e muito bem feito não permitia a entrada. Os colegas que estavam do lado de fora queriam saber se estava tudo bem. Muito assustado Jota foi para fora e perguntou: vocês têm certeza de que ninguém saiu? Os dois responderam: ninguém! Então tudo bem, vamos embora não há caçadores.

Enquanto se dirigiam em direção ao rio, Jota percebeu que os colegas estavam muito assustados e com razão, pois, eles tinham visto e perseguido os caçadores. Quando chegaram à mata ciliar do Rio Turvo ouviram uma risada muito esquisita, do tipo que ocorre nos filmes de terror. Os bonés quase saíram das cabeças. Os policiais correram em direção à embarcação e Jota foi até a moita de malícia e se machucou nos espinhos. Isso decorrente da pressa em apanhar os remos e a mangueira do tanque que não estavam lá. Quando chegaram à margem do rio estavam estupefatos e a embarcação se encontrava amarrada na outra margem. Mas, quem a levou para a outra margem? A correnteza era muito forte, alguém tinha que buscar a embarcação. O Tadeu tremia como se estivesse com febre alta. Jota seguiu pela margem no sentido rio acima arrepiando sem parar, após ter caminhado uns cem metros, se jogou na correnteza que o levou até a embarcação. A embarcação estava bem amarrada numa pedra grande e Jota observou na areia, onde não havia vestígios de ninguém. O melhor que tinham a fazer seria irem embora. Jota deu a partida, o motor funcionou e ele atracou na outra margem para apanhar os companheiros. De repente, ouviram barulho de motor no sentido rio acima, o dia já estava amanhecendo, pois eram 05h45min h da manhã. Em seguida outra embarcação atracou do lado da embarcação do Jota e se tratava do Sargento Ambrósio, Cabo Roberto e o Soldado Astolfo. O Sargento queria saber das novidades, pois, a muito aguardava na ponte do 45. De pronto Jota passou a ele o que havia acontecido e todos começaram a dar risadas. O Sargento chegou a afirmar que era balela e que havíamos demorado, porque deviamos ter parado para descansar. Jota reforçou: tudo bem, o senhor gostaria de nos acompanhar, vamos lhe mostrar a casa onde os caçadores se esconderam. E para lá se dirigiram. Amigos, primeira surpresa, durante o percurso não encontraram a cerca, caminharam muito, quase um quilometro e também não encontraram casa alguma. E agora? Agora, Jota não sabia o que dizer. O Sargento Ambrósio permanecia sério, mas o cabo Roberto e o Soldado Astolfo faziam gozações.

Pois bem, passado um mês, Jota encontra um senhor que espontaneamente resolveu conversar com ele sobre o que havia acontecido. Esse senhor deveria estar com oitenta anos de idade e disse que havia nascido naquela região. Ele disse ao Jota: meu filho você não viu nada, eles caçam todas as noites. Na verdade eram dois irmãos que caçavam com armadilhas, ou seja, deixavam às espingardas armadas no carreiro dos animais, assim, quando passassem, as espingardas disparavam matando-os cruelmente. A mãe deles sempre dizia, parem com isso meus filhos, Deus não aprova o que vocês estão fazendo.

Certa vez, antes de o dia amanhecer, eles foram fazer a ronda para recolher os bichos mortos, quando foram atacados por um enxame de abelhas africanas, cada um correu para um lado e esqueceram-se das espingardas armadas, elas dispararam e eles se esvaíram até a morte sem que ninguém pudesse ajudá-los, Morreram do mesmo jeito que morria os bichos, ou seja, sozinhos. A mãe deles morreu faz pouco tempo e sofreu muito com a perda dos filhos. Agora, eles ficam vagando aí pela beira do rio e atentam as pessoas que passam lá e, normalmente, depois da meia noite, mas, não se assustem não, eles estão precisando de uma boa oração. Jota agradeceu aquele senhor pelas informações e perguntou, qual é o seu nome?
Ele respondeu: Totonho Soares, seu criado.

Mesmo após as explicações Jota continuou preocupado, pois, ninguém acreditava. Num determinado dia passando pela cidade de Nova Granada pararam numa lanchonete para tomar refrigerante em face do forte calor do verão. Em dado momento Jota comentou com o senhor que os atendia a respeito do senhor “Totonho Soares.” Ele olhou para Jota e perguntou, mas, você conheceu o senhor Totonho Soares? Jota respondeu: sim conversei com ele a semana passada, inclusive ele falou a respeito dos irmãos caçadores que as abelhas mataram. O senhor da lanchonete olhou para Jota e disse: eu sinto muito, mas o senhor Totonho Soares era o pai dos rapazes e morreu faz muito mais tempo, eu acho que deve haver algum engano. Diante dessa informação Jota achou por bem não comentar mais esse assunto.

Entretanto, hoje, quando em patrulhamento naquelas imediações o cabelo fica eriçado e os patrulheiros avistam as silhuetas as margens do Rio Turvo, mas ignoram, pois aquelas almas estão até ajudando na fiscalização, ou seja, impedem que outros caçadores matem os animais que ainda utilizam aquele habitat. A última vez que Jota, Getúlio e Tadeu passaram por lá atracaram a embarcação na margem direita do rio, ou seja, bem junto à prainha que se forma por conta do assoreamento. Ali aproveitaram para tomar água e café, enquanto descansavam, ouviam barulho. Jota, então resolveu escrever uma poesia em homenagem aos que parecem que moram lá. Na verdade, talvez, estejam vagando por lá. Tudo bem, o mundo com os seus mistérios. Mistérios a serem desvendados.

Protegendo quem mora lá
À noite navego esse rio sinuoso,
Escuridão, vento soprando,
No céu não há estrela e nem lua.

Não tenho horizonte.
O coração dispara adrenalina pura.
O ar é puro, respiro profundo,
Assim, me acalmo e espero.

Do lado de dentro da curva estaciono,
Não escuto nada e nada do que procuro,
Mas, alguém me escuta,
Talvez, sejam seres que ali moram.

A quietude se altera, cariaponga chora.
A mãe da lua suspira e grita,
Na espreita, abre a boca e alimenta.
Um bicho pula, o galho arrebenta.

Folhas secas estalando.
Até parece que devagar vão caminhando.
O cheiro sinto, meu cheiro sentem,
Por instinto, se afastam.

Não moro aqui, daqui não sou.
Eu vou embora, não, não posso!
Porque espero, alguém não mora,
Porém é cedo para quem mora.

Olho para o céu não vejo estrela,
Mas, vejo facho de luz é de alguém,
Que aqui não mora, então espero.
Os surpreendo e vou embora.

Da escuridão, alguém me olha,
Cariaponga chora e um bicho pula.
Mãe da lua se alimenta, o galho arrebenta.
Tudo bem, adeus para quem mora!

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