terça-feira, 14 de julho de 2009

A NATUREZA AGRADECE

Década de oitenta, talvez, mês de julho - ano 1984 - patrulha ambiental se preparava para navegar rio acima com objetivo de encontrar caçadores de jacarés ou capivaras. Meia noite, a temperatura se aproximava dos 10 graus. Isso na região de ORINDIUVA-SP, onde a temperatura predominante fica em torno dos 30. Durante o dia havia feito calor por demais, por isso os patrulheiros não portavam agasalhos. O comandante da patrulha era um Cabo recém chegado ao policiamento ambiental, ou seja, não conhecia da matéria. Esse, por força do regulamento comandava dois soldados, um piloto da embarcação enquanto o outro cumpria função de auxiliar. Começada a navegação, o piloto empreendia velocidade de patrulhamento. O frio aumentava ainda mais. De repente, o comandante que se sentava mais ou menos no través disse ao piloto:

Comandante: não dá para ir mais depressa?

Piloto: o risco é grande, basta o senhor observar que o rio está baixo e isso pode ocasionar a quebra da hélice.

Comandante: mas você não conhece o rio?

Piloto: sim, mas é noite e na hipótese de quebrar a hélice não temos uma de reserva.

Depois de uns 10 minutos ouve-se de novo:

Comandante: pára ali na próxima curva.

Em tempo: o Rio Turvo é um rio novo, por isso serpenteia o relevo de pouca inclinação e as curvas se sucedem. O piloto parou na curva apoiando a embarcação bem num banco de areia.

Comandante: a partir daqui, eu piloto a embarcação.

Piloto: desculpas, mas o senhor conhece de pilotagem?

Sim, eu conheço, pode se sentar ali no meu lugar.

De início houve dificuldades para sair, vez que o banco de areia atrapalhava um pouco. Os soldados auxiliaram com os remos e o comandante deu a partida. Meu Deus do céu, aquilo foi uma loucura, pois o barco mais parecia um carro de “fórmula I” fazendo as curvas apenas com duas rodas. O piloto titular virou e falou para o comandante:

Piloto: eu acho que mais adiante o senhor não vai conseguir fazer a curva, não dá para ir mais devagar?

Comandante: não, eu quero chegar logo ao final do trecho (40 km), pois faz muito frio e do jeito que está eu não acredito que algum louco esteja por aqui caçando.

Piloto: na época do frio os animais se ajuntam nas margens e ficam vulneráveis, isso atrai os caçadores.

Mal terminava o dialogo uma curva fechada ficou pequena, justamente, onde um ingá debruçava sobre o rio, bem ali, a embarcação adentrou mais parecendo um touro bravo querendo jogar o peão ao chão. Do lado de fora da copa do ingá só ficou o cabo comandante, os outros dois tentavam se soltar das ramas e das lianas. O comandante gritou: ah, meu Deus acode, está entrando água aqui por trás (popa). O piloto (titular) subiu num dos galhos e segurou bem a proa empurrando a embarcação novamente para dentro d’água.

No sertão paulista ou no interior quando alguém faz algo que não deveria, acostumam dizer que ficou “meio tele”. E foi assim que o comandante ficou. Na verdade não tinha o que dizer. Segue o barco. Isto é, segue o patrulhamento.

Bem, todo aquele rebuliço ou estardalhaço culminou em algo positivo. Atentem.

Piloto titular assume posição junto à popa e o 25 HP ronca rio acima, agora, com mais velocidade até porque já nem fazia sentido ir devagarzinho. De repente, depois de uma curva percebem uma embarcação meio que na sombra, bem junto à margem. O piloto deixa de acelerar e a embarcação começa a ser levada de ré pela própria correnteza e assim que começam a passar pela embarcação escondida o piloto a acelera e atraca, paralelamente. Há sangue no estrado da embarcação, no entanto, não há ninguém.

O comandante fica de guarda da embarcação enquanto o piloto e o auxiliar adentram a mata a procura de algum vestígio. Caminham bastante sem acender nenhum farol até ao ponto da visão se adaptar na escuridão. Os curiangos, ás vezes, os assustam, pois sempre ficam no meio da trilha. Eles também se assustam do imprevisível canto do Urutau. De súbito, ao passarem próximo de uma frondosa árvore ouvem algo que se mexe entre folhas.

Nessa região predominam cascavéis, caiçacas e jararacas e isso fazia os patrulheiros tomar mais cuidados, vez que esses se encontravam de bermudas e tênis. Pisar numa dessas rastejantes, um abraço! Bem, nessa circunstância melhor acender o farol; acenderam e direcionaram o facho na direção de onde veio o barulho. Para surpresa deles entre as folhas avistaram a ponta de um pé humano. O piloto olhou para o auxiliar e disse baixinho:

Piloto: será que mataram alguém e enterraram aqui junto à árvore?

Auxiliar: talvez, pois o sangue lá na embarcação pode ser desse cara que está aqui enterrado.

Piloto: mas será que ele está morto?

Auxiliar: eu acho que ainda não, morto não faz barulho.

Piloto; bem, então ele está vivo e a única forma de saber é puxar ele pelo pé.

Então vamos lá. E assim, os patrulheiros arrancaram um cara do fundo do tronco de uma árvore. Detalhe, não estava morto e nem ferido e era dos patrulheiros um caçador conhecido que justificou ter parado para descansar e que sem querer havia dormido.

Piloto: tudo bem, senhor fulano, mas a embarcação é sua?

Fulano: sim, é minha.

Piloto: e aquele sangue lá no estrado da sua embarcação.

Fulano: sangue, eu não vi nada, eu não sei de nada.

Obs.: estranha a justificativa acima, uma vez que a ocorrência foi em 1984 – século XX, sei lá até parece que já ensaiavam a frase. Bem, deixemos pra lá e vamos ao que interessa.

Ao se aproximar da embarcação perceberam que o comandante tiritava de frio chegando a bater os dentes. E fazia frio mesmo!

Um conselho, quando se está batendo os dentes por causa do frio intenso, ás vezes, respirar profundamente faz parar a tremedeira. O frio é ruim? Depende, às vezes, ele é bom. Sabem por quê? Porque o comandante havia encontrado três mochilas próximas da embarcação e pela lógica, obviamente, cada mochila pertencia a um tripulante da embarcação. Entretanto, o fulano que até a pouco se encontrava enterrado, negava. Mas o frio ajudou e provocou uma crise de espirros num dos outros dois que por ali se escondiam. Pronto, junto dos outros dois estavam às armas, a munição, bem como uma capivara (macho) de aproximadamente cinqüenta quilos.

Naquela época se confeccionava o auto de infração de caça “AIC”, onde apreendia o animal abatido, as armas e a munição, apenas isso. Depois, administrativamente, encaminhava via ofício a autoridade competente. Nesse dia, na natureza fez frio e, esse fez com que um não piloto viesse a pilotar; fez uma embarcação subir numa árvore; enterrou um homem vivo; a natureza perdeu um espécime (hidrocheridae) e por azar dos caçadores provocou num deles uma crise de espirros. A natureza ainda ficou agradecida.

Um comentário:

Anônimo disse...

Fez-me lembrar de uma outra história, até parecida, na qual estavam eu, você e o Lucena.
Uma noite gelada...
Ro acima...
Relativamente calma...
Um encontro com o suposto infrator...
Uma denúncia...
E um auto de prisão em flagrante.
Até valia a pena ser contada.