terça-feira, 7 de julho de 2009

Lais de Guia

Wikimedia Commons

As 05h00min da manhã, o pescador acompanhado do filho solta o barco nas águas do Rio Turvo e desce lentamente com o propósito de não espantar os peixes. Desce até encontrar o local preferido, onde o rio faz um remanso. Na margem esquerda a copa do ingá inclina sobre as águas dando a impressão de que tem sede. Bem ali o pescador atrela seu barco nas ramas utilizando para isso apenas o Lais de guia, um na proa e o outro na popa.

Na verdade o barco repousa num ponto de águas tranqüilas e assiste a forte correnteza logo bem ao meio do rio. O pescador olha para o filho e diz: daqui fisgaremos os peixes que correm ali. Ambos vestem coletes salva-vidas, bem como tem a disposição água potável, lanche, café, refrigerante e toda tralha de pesca. Ah, e também a licença para pesca embarcada.

A pesca se inicia um pouquinho antes do sol nascer bem próximo do leste, o dia passa e esquenta até ao ponto do sol começar a descida rumo a algum ponto próximo do oeste. Nenhuma embarcação havia importunado a pescaria e os pescadores se encontravam mais ou menos felizes, vez que ambos já havia capturados 12 peixes, sendo: 04 curimbatás, 05 piaus e 03 piaparas. Por que mais ou menos? Ora, porque tinham dúvidas quanto ao tamanho dos peixes capturados.

De repente, ouvem barulho de motor de popa que se aproxima. Os pescadores se entreolham, adrenalina sobe, assim como o barulho do motor. O barco verde e branco adentra a curva lentamente desce mais uns 30 metros e retorna para atracar paralelamente ao barco dos pescadores. As embarcações balançam um pouco, mas nada que pudesse alterar ânimos. Os patrulheiros ambientais cumprimentam os pescadores.

Patrulheiros: Boa tarde, tudo bem?

Pescadores: tudo bem, Boa tarde!

Patrulheiro: e a pescaria foi boa?

Pescador: sim, até que foi.

Patrulheiro: por favor, a licença de pesca.

Pescador: está aqui seu guarda, a minha e a do meu filho.

Patrulheiro: muito bem, estão autorizados a pescar.

Pescador: a minha renovo todo ano, agora, a do meu filho é a primeira licença, na verdade, ele está aprendendo.

Patrulheiro: vocês estão certos, assim jamais terão problemas.

Patrulheiro: o senhor poderia levantar o samburá?

Pescador: meio desconfiado levanta o samburá e nesse momento os peixes se sentindo como “peixes fora d’água” se debatem como pedindo a liberdade.

Patrulheiro: pega a trena e mede os peixes se certificando de que todos estão fora do tamanho mínimo permitido.

Patrulheiro: infelizmente, vocês infringiram a legislação e nós seremos obrigados a autuá-los.

Pescador: seu guarda, o senhor poderia levar em consideração, pois é a primeira vez que meu filho vem pescar comigo.

Patrulheiro: a iniciativa de trazer o filho na pescaria sem sombra de dúvidas é louvável, no entanto, imprescindível será o conhecimento, bem como a consciência sobre a importância da preservação das espécies. Nós sabemos que vocês ficarão aborrecidos com a autuação, entretanto, a nossa condição de prestadores de serviços a sociedade, nos impele a prestar serviços relevantes e isso nos impede de fazer vistas grossas.

Pescador: eu prometo que nunca mais nos encontrarão pescando.

Patrulheiro: não, não façam isso, nós queremos encontrá-los sim, porém da próxima vez sem que haja irregularidades o que nos levará a lhes desejar apenas uma boa pescaria. A autuação feita e assinada conduz o filho a indagar:

Pescador filho: vocês vão levar os peixes?

Patrulheiro: Não, você pode abrir o samburá e soltá-los ao rio.

Pescador filho: atende a orientação soltando os peixes que chegam a espalhar água para todos os lados.

Patrulheiro: provavelmente, quando chegar o período da piracema, esses peixes irão desovar e, assim, multiplicar em milhares; até outro dia e não fiquem aborrecidos, pois nossa esperança é a de que esses peixes que foram soltos possam em breve produzir filhos aos filhos de outros pescadores e, assim, sucessivamente.

O barco verde e branco se afasta vagarosamente e os seus tripulantes um pouco tristes, pois nem sempre a conduta correta agrada a todos. Com relação a esses pescadores ficou a incógnita.

Segue a tabela:

ESPÉCIES

NOMES VULGARES

CT (cm)

Brycon hilarii

piracanjuba, salmão-crioulo, matrinxã

40

Gymnotus carapo

tuvira, sarapó, morenita

20

Hoplias malabaricus

traíra

30

Hypostomus spp acari,

cascudo

30

Leporinus spp.

piau-verdadeiro, piau, piava, bicuda

30

Leporinus friderici

piau, piau-três-pintas

25

Leporinus aff. Obtusidens

piapara, piau-verdadeiro, piavuçu

30

Liposarcus anisitisi

Cascudo-pantaneiro

Megalancistrus aculeatus

cascudo-abacaxi

25

Piaractus mesopotamicus

pacu-caranha, pacu

40

Pimelodus maculatus

mandi, mandi-amarelo

25

Pinirampus pirinampu

barbado, mandi-alumínio

50

Prochilodus spp.

curimatá, curimbatá, papa-terra

35

Pseudopimelodus zungaro pacamão,

bagre-sapo

30

Pseudoplatystoma corruscans

surubim, pintado

90

Pseudoplatystoma fasciatum

surubim, cachara

90

Pterodoras granulosus

Armado, armal, abotoado

35

Rinelepis aspera

Cascudo-preto

25

Salminus maxillosus

dourado

60

Satanuperca papaterra

cará

12

Schizodon borelli

piau-catingudo, piava

25

Schizodon nasutus

taguara, timboré

25

Zungaro zungaro

jaú

80

2 comentários:

Aderval disse...

Caro amigo, sabia de sua competÊNCIA, VOCE É UM DOS MEUS AMIGOS QUE MUITO ESTIMO, GOSTEI MUITO DE SUA INICIATIVA, É DE DAR INVEJA (NO BOM SENTIDO) PARABÉNS CONTINUA ASSIM, Aderval

Jorge Gerônimo Hipólito disse...

Muito obrigado pelas deferências, o sentimento é recíproco. O "Lais de Guia" vem de encontro a necessidade de nos educarmos para a vida, por exemplo, quantos pais já pescaram com os filhos e quantos nunca o fizeram? No futuro, mesmo querendo, talvez, não seja mais possível, pois nossos rios estão morrendo. Em tempo: apenas para distrair, experimente fazer o nó constante da imagem.