terça-feira, 9 de junho de 2009

Minha Obra


Hoje, ao acordar pela manhã tive pressentimento de que estava num outro mundo, na minha memória um sonho que parece ter durado a noite inteira. Sonhei que participava de uma exposição de obras de arte, porém não conhecia nenhum dos participantes.
Eles passavam por mim e me cumprimentavam declinando meu nome e ao mesmo tempo paravam na frente da minha única obra exposta. De repente, quiseram saber qual sentimento me levou a pintar um rio que entrecortava a floresta e descia pelo vale com montanhas e nuvens negras ao fundo e com uma pequena cabana próxima a curva da margem direita?
No momento em que olhávamos a paisagem algo estranho aconteceu, na verdade, eu me encontrava inserido nela. Entretanto, no sonho algo me dizia; fique tranqüilo e responda, pois você faz parte da obra. Assim, sentei-me a margem do rio e comecei a responder.  Amigos, naquela cabana mora alguém especial que amo além do meu próprio limite. Estar aqui me proporciona vê-la sem que me perceba, contudo, a pintei num local que oferece perigo.
Eu estou preocupado com as nuvens negras que já molham as encostas das montanhas, uma vez que o rio irá transbordar, conseqüentemente, a cabana ficará inundada. Por isso preciso fazer com que ela saia da cabana. Depois disso apago-a e a pinto na outra margem, assim quando meu amor voltar nem se dará conta de que a cabana mudou de lado.
Tudo bem respondeu meus interlocutores, porém nos explique, como seu amor atravessará o rio que estará transbordando? Naquele momento, trovões e raios rasgavam o céu cinzento, as árvores balançavam, o barulho do vento zunia pelo vale e a chuva coloria de branco, a verde floresta. O tempo encurtava, eu tinha urgência em encontrar solução. De imediato lembrei, escrevi um bilhete pedindo a ela que subisse pela margem do rio e que colhesse a única rosa cor-de-rosa da única roseira existente.
Meus interlocutores também leram o bilhete e apavorados queriam saber onde se encontrava a roseira. De posse de meu pincel pintei a roseira com rosas brancas, amarelas e apenas uma cor-de-rosa que ficou posicionada bem no alto do arbusto. A altura e os espinhos dificultariam que alguém a alcançasse e isso me daria tempo para resolver o problema. Tudo pronto, eu corri até a porta da cabana, onde bati forte por três vezes, ali deixei o bilhete e me afastei embrenhando um pouco na floresta.
Ela saiu, pegou o bilhete, leu, olhou para os lados me procurando, felizmente não me viu, subiu o rio atendendo o que eu havia escrito. Assim que ela se afastou, peguei uma espátula e apaguei a cabana. E agora? Bem, tinha que pintá-la na outra margem, mas como atravessar o rio. Óbvio como pude me esquecer, rapidamente lancei mão do pincel e pintei uma ponte em forma de arco. Depois de pronta a atravessei e pintei a segunda cabana tão linda quanto à primeira, contudo, tomei cuidado de pintá-la com a porta aberta, pois facilitaria entrada do meu amor, assim que retornasse fugindo da chuva.
A chuva foi se aproximando e atingiu a roseira que há pouco havia pintado, foi quando meu amor percebeu que não tinha mais jeito de apanhar a flor. Decepcionada começou o retorno a cabana. Meus interlocutores gritaram, a chuva vai apagar a ponte a e a nova cabana, você não vai conseguir. Meu Deus, o que faço? Imediatamente, novamente peguei o pincel com qual pintei as nuvens do fundo de branco, assim sumiram raios e trovões. A chuva parou e o céu ficou cor de anil. O sol brilhou sobre o vale.
Muito feliz atravessei a ponte e fui de encontro de minha verdadeira obra, porém o sonho se transformou em pesadelo, pois quando olhei, o rio estava multicor, ou seja, manchas rosadas, azuis, vermelhas e negras que correspondiam a sua face rosada, seus olhos azuis, ao vestido vermelho e por fim aos seus cabelos negros como as trevas em que me encontro agora.
Do lado de fora da obra, meus interlocutores choravam, pois também sentiam a minha dor. Concluindo, a chuva do meu sonho apagou o amor que tanto sonhei.

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