segunda-feira, 1 de junho de 2009

Aquele amor que faz você sentir saudades

Numa certa época não muito distante, minha terra tinha palmeiras, onde cantavam os sabiás, as aves que lá gorjeavam, hoje, já não gorjeiam cá. Ah, mas os pais dessa mesma época, esses sim eram rigorosos, bastava um simples olhar e o filho já sabia, por exemplo, que não deveria interferir no assunto ou deveria fazer silêncio, pois atrapalhava a conversa. Na hora de dormir, mesmo com todo rigor, prevalecia o amor, os filhos se aproximavam dos pais e, respeitosamente, lhes tomavam as bênçãos, de pronto, sempre eram abençoados, pela manhã a mesma coisa. Havia situações que o filho não conseguia dormir se não fizesse isso.

Na escola, no momento que a professora adentrava a sala de aula, os alunos em respeito ficavam de pé e só sentavam depois que a professora para isso acenasse. Os alunos adoravam as professoras e professores, esse sentimento era recíproco. Religião? Não havia a diversidade que há hoje, no entanto, havia um respeito imenso e havia também grande esforço no sentido de desoprimir os oprimidos. Na época, não havia inclinação para angariar recursos sem fim, por parte dos religiosos, diferentemente dos dias atuais.

Quando um rapaz intencionado em namorar uma moça, sem sombras de dúvidas aos pais pediam permissão e também pediam para ficarem noivos e para se casarem. Os pais dos noivos, automaticamente, se transformavam em compadres e, assim, mudava a forma de tratamento. Havia até conflito quando do nascimento do primeiro neto, pois avôs maternos e paternos queriam ser padrinhos.

Nesse mesmo período, os estudantes concluíam a quarta série e para cursar da quinta a oitava, deveriam antes, fazer o curso de admissão, assim, como se fosse um cursinho dos dias atuais, na conclusão, se aprovados, continuavam os estudos. Não havia flexibilidade, o aluno tinha que estudar (aprender) a matéria para conseguir a aprovação. Não havia preocupação com dados estatísticos. Os pais não trabalhavam de diaristas, normalmente, eram colonos, meeiros ou arrendatários. Na verdade, também não havia energia elétrica, televisão, gás liquefeito de petróleo.

À noite, as pessoas sentavam na frente das casas e contavam causos de assombração, as crianças ficavam com medo e iam se juntando umas as outras. Às vezes, olhavam para o céu na expectativa de testemunhar uma estrela que caía, até que um dia descobriram uma estrela que não caia, ou seja, ela se movia para bem longe. Essa estrela despertou muita curiosidade, pois todas as noites havia pequenas apostas e ganhava quem a avistasse primeiro. Depois de muito tempo chegava à informação de que não se tratava de uma estrela, mas sim de um satélite. O avanço da tecnologia já alcançava os olhos até das pessoas mais simples.

Muito raramente, se ouvia comentar a respeito de pessoas dependentes de entorpecentes, o mais comum eram pessoas mais chegadas numa cachacinha, da amarelinha, por exemplo! Infelizmente, o êxodo rural fez sumir as estrelas do céu, tanto as que caiam quanto as que se moviam. Os sabiás sumiram e junto com eles o melodioso canto. Mas não foi apenas isso, sumiram os meeiros, os colonos e as colônias, os coretos, as barracas e as festas.

E as grandes procissões, onde se juntavam inúmeras comunidades dos Filhos de Maria (Marianos). Os compadres também desapareceram e no lugar deles os desquites, divórcios, talvez decorrentes da insegurança, principalmente por falta de dinheiro. Mas surgiram também os sem tetos, sem terras, sem convênio, sem emprego, sem saúde, sem marido, sem esposa, filhos sem pais e pais sem filhos. E mais, surgiram governos que não são governos. O bem comum deixou de ser prioridade e deu lugar a corporativismo.
Bem, nos últimos tempos testemunha-se o desmoronamento da estrutura familiar, entre elas, famílias ricas, médias, pobres e paupérrimas. Provavelmente, por causa da extinção de fatores preponderantes, como: simplicidade, ingenuidade, bondade, fidelidade, humanidade, respeito e, muito, mas muito amor! Aquele amor que faz você sentir saudades, do amigo, da amiga, do irmão, da irmã.

Ah, meus amigos como é bom sentir saudades dos pais e ainda ser possível visitá-los, ou amargar a impossibilidade. Ah, como é bom sentir saudades das professoras e dos professores, dos compadres, das comadres, do sino da capela convidando para a única missa de uma vez por mês. Ah, meus amigos, como é bom sentir saudades daquele presidente, governador, prefeito, vereador ou qualquer outra autoridade que tinha e mantinha a palavra e que envidava esforços no sentido de equilibrar a condição de vida nas comunidades.

Ah, meus amigos e amigas quantas saudades daquela esperança que nos motivava a acreditar que dias melhores viriam e que nossas crianças poderiam manter o brilho nos olhos com a certeza de que daríamos conta do recado. Quantas saudades! Mas, tudo bem, a vida sempre será imprevisível, de repente, nossa terra possa voltar a ter palmeiras e sabiás, crianças, causos de assombração, escola, educação, amor, e tudo de bom!


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