domingo, 3 de maio de 2009

Onças, Homens e Florestas

No início da década de oitenta, um fazendeiro fez contato com a polícia ambiental, onde reclamava de uma onça que comia seus bezerros, o que redundava prejuízo. Por conta disso buscava solução. Passou-nos as seguintes coordenadas: vocês seguem de Pontes Gestal para Riolândia e, assim que passarem a ponte do Rio Turvo atentem para uma fazenda a direita, observem na cerca de arame farpado, onde existem dois arames ajuntados. Pois bem, passem pela cerca e sigam a pé ate um pequeno regato com rochas de basalto nas suas margens. “Ás águas límpidas faz desse lugar o preferido da onça pintada”. Vejam bem, não se tratava da suçuarana, (puma) mas sim, talvez, da onça pintada (panthera). Depois observem que existe uma área de pastagens circundada pela mata e nela existe um caminho (atalho) transversal que liga o regato ao outro lado da mata.  Sigam o caminho até chegarem à cerca que separa a mata da pastagem. Na cerca atentem para os pêlos deixados no arame, ou seja, há pêlos de bezerro, bem como pêlos de onça. Depois de passarem a cerca, continuem no caminho, mais adiante encontrarão um amontoado de folhas, sob as folhas partes do bezerro (nelore). A carne estará cheirando forte, pois é assim que a onça prefere. Seguirmos as orientações passo a passo e chegamos, exatamente, num amontoado de carne estragada, além desses indícios, vimos também às pegadas do grande felino.

Em São Jose do Rio Preto, levamos ao conhecimento do comandante. Esse, depois de avaliar os riscos, achou por bem desenvolver curso que nos habilitaria a apreender, conter e conduzir o animal. O curso se realizou no auditório da Casa de Agricultura que mantinha sede na Avenida Alberto Andaló, aliás, próximo da sede da Polícia Florestal (denominação da época) que ficava na mesma avenida sob o número 2.886. Durante o curso aprendemos inclusive a fabricar a arma que dispararia o dardo que estaria conduzindo rompum ou ketalar. Essas substâncias permitem adormecer o animal, contê-lo e transportá-lo com segurança. Desta feita, em que pese contrariar a natureza livraríamos o fazendeiro dos constantes prejuízos. Entretanto, havia impasse, pois para capturar o animal far-se-ia necessário construir armadilha, onde no seu interior seria colocado um bezerro ou um cabrito que seriam o chamariz para a onça pintada. O problema é que também tomamos conhecimento de que a onça age num raio de 10 a 40 km2. Isso significava que a apreensão poderia ocorrer em vinte e quatro horas ou levaria semanas, isto é, tudo dependeria da passagem da onça nas proximidades da armadilha. Importante lembrar, alguns policiais ambientais permaneceriam de plantão e contando com a sorte, inclusive para que na hora que a onça chegasse, o vento pudesse estar no sentido oposto e ela não viesse a sentir o cheiro humano. Para desenvolver essa missão precisaríamos de recursos, (verbas) principalmente, de alimentação. “Na época o estado não dispunha recursos”. Por isso levando em conta o prejuízo sofrido pelo fazendeiro, solicitamos a ele, uma parceria, ou seja, forneceria rancho enquanto o estado forneceria os homens e os meios de locomoção. Além disso, obviamente, precisaríamos de ordem da autoridade competente para executar a missão de retirada de um animal silvestre do seu habitat natural. O fazendeiro muito arguto respondeu que não havia como colaborar, uma vez que era obrigação do estado. Assim, considerando que ele não estava errado, desistimos.  Concluindo, a onça pode ter sido abatida por algum caçador, mas também pode ter sobrevivido e até aumentado sua prole, o mais provável, haja vista, a notícia de aparecimento de animais silvestres na região.  A natureza, todos sabem é perfeita, ela sozinha consegue se recuperar, infelizmente, nós humanos sempre atrapalhamos. Os homens estão desistindo da prática da caça, conseqüentemente, animais se multiplicam, no entanto, eles, assim como muitos homens, hoje são classificados como “sem tetos”. O ideal seria aos nossos especialistas interagirem na busca do equilíbrio, por exemplo, investir na formação de parques florestais, estações ecológicas, reservas biológicas etc.


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