segunda-feira, 11 de maio de 2009

O Caboclo e a Carta Magna

-... vô cobrar deis o que foi prumetido ué, tem palavra o num tem palavra. Eu lembro qui nas campanha eleitorar, eis prumeteru que ia cuidar desse tar de meio ambiente, mais inté agora, num fizeru nadica de nada... -


“Mês de junho, cinco horas da tarde. O caboclo prepara uma matula, onde acomoda algumas espigas de milho com as palhas e mais um rolo de arame liso. Mas, também, não se esquece da cadeira de lona, imprescindível na empreitada. Em seguida, vai até o quarto, de onde desaloja a chumbeira pica-pau, uma purunguinha com pólvora, e mais duas contendo chumbo miúdo e espoletas. Ah, e uma porção de bucha. Leva também uma varinha de bambu, com linha anzol e chumbada e um pouquinho de minhocas arrancadas lá no fundo do quintal, bem próximo da horta, onde o chão fica mais úmido. Para controlar a ansiedade um pedaço de fumo de corda, algumas palhas para a confecção do cheiroso, uma garrafinha de água que passarinho não bebe, e pronto, é só seguir em direção ao Ribeirão da Onça, onde a coordenada de sua memória o levará até a ceva de paca, sua caça preferida. No momento de sair de casa:

"Muié se arguém prigunta pur eu fale que fui pra vila e que num tem hora preu vortá, ta bão? Ta bão, meu véio, mais óie aqui, vê se dessa veize ocê traiz arguma coisa dessa vila, e tome cuidado procê num trombar cum us homis da frorestar, pruque eis ti leva pru xilindró. Pó dexá muié, ocê sabe que piso tão macio que num quebro nem gaio seco esturricado, num sabe? É, eu seio, então vai, e que nossa siora proteje ocê. Amém"!

No caminho, o caboclo sai da estrada principal e segue pelo atalho das pastagens, ou dos canaviais e, às vezes - quando ainda existe -, segue pelo meio da mata até chegar às margens do Ribeirão da Onça. Nas margens, esconde a matula e os outros apetrechos - isso por precaução -, pois vai que, de repente, os policiais ambientais aparecem... Assim, aproveita e senta sobre o tronco de uma sucupira e repara que essa foi derrubada há muito tempo. Viaja na imaginação e se lembra das quantas vezes estivera ali com o seu pai, isto lá na década de quarenta, quando pescavam bagres, espadinhas, enguias, traíras e sem se esquecer que, no mês de novembro, até algum douradinho que, normalmente, muitos deles se encontravam buchudinhos de tanto ovinhos. Para se deleitar com as lembranças, acende um palheirinho feito com fumo goiano.

O caboclo está feliz, pega a varinha, desenrola a linha e dá-se início a 'sessão tortura', pois não tendo pena da minhoca a enfia no aguçado anzol e ainda por cima dá-lhe uma grande cuspida, acreditando que assim fica fácil atrair algum peixinho... Bem ali sentado, aguça os ouvidos lá na estrada, uma vez que se ouvir um barulho parecido com o de um jipinho bandeirante, com certeza vai pescar bagre até a hora de ir embora..., mas já está quase escurecendo e tudo é silêncio.

O coração dispara, está na hora de mudar os planos. Assim, devagarzinho, apanha a matula na moita, apaga o palheirinho com muito cuidado e, silenciosamente, adentra a mata já quase escura, indo até o lugar preferido. Chegando lá, observa que as espigas de milho que deixou, dias atrás, estão comidas, bem como alguns frutos do bacurizeiro também roídos. Isso o deixa animado. Refaz a ceva e olha a direção do carreiro (trilha construída pelos animais silvestres), dando conta do lado em que o animal se aproxima, aproveita e observa a direção do vento, uma vez que o animal não pode sentir o seu cheiro. Sobe na velha árvore, sua companheira de há muito e, lá no alto, acomoda os apetrechos nos ganchinhos por ele mesmo posicionados. A cadeira de lona é amarrada na árvore possibilitando posição de conforto, pois é imprevisível o tempo da espera. A respiração vai se acalmando, ouve-se apenas a batida do coração, um pouco acelerado, talvez pelo desgaste da própria vida, uma vez que tudo sempre foi difícil. Lá em cima da árvore, o caboclo também ouve os jatos cortando o céu e imagina: "será qui o prisidente, o guvernadô e us deputado tão lá drento. Eita, mais esses homis é corajoso dimais da conta, óie só, viajar naqueas artura. Eu, só se tiver mortim, mortim, pra entrar num bicho daqueis sô, Deuso melivre e guardi".
De repente, percebe um clarão vermelho iluminando o céu e um barulho que até parece uma tempestade que se aproxima. O caboclo então se dá conta de que, na verdade, se trata da queima de um talhão de cana-de-açúcar... de uma das dezenas de usinas da região. Os olhos do caboclo se enchem de lágrimas, pois se sabe que muitos animais morrerão esturricados pelo fogo rápido e rasteiro dos canaviais, e que não serão aproveitados. Na verdade, um dia depois da queima a área fica povoada de gaviões, principalmente, dos carcarás. Esses já estão acostumados e bem robustos, pois há abundância de carniça. O caboclo percebe que o fogo já passou, se lembra do presidente, do governador, dos deputados, e reflete:

"Será que lá do artão, eis enxerga o crarão aqui de baxo, ou será que eis senti a catinga dos bicho queimado. Ara sô num é qui eu to me lembrano que arguns dias desse, eis prometeru que ia acabar cum as queimada dus canaviar, por causo da morte dus bicho. Será qui eis vão cumpri? Sei não, eu escuitei meio sem querer, que us usineiru vão poder queimar a cana pur mais trinta anu. Issu é tempo pur dimais! Eis vão acabar com os bichinhos. Isso num tá certo sô, não é justo eu ficar esperanu um tempão pra matá uma paquinha aqui na ceva, qui eu perparo cun tanto amô e, às veiz, num dá certo! Eu to achanu qui num dá mais certu pruquê os bichos num tão teno mais onde morar. Quarque dia desse vou percurá o cessor desses deputadu daqui du Riu Pretu, ou de Catanduva, e vô cobrar deis o que foi prumetido ué, tem palavra o num tem palavra. Eu lembro qui nas campanha eleitorar, eis prumeteru que ia cuidar desse tar de meio ambiente, mais inté agora, num fizeru nadica de nada. Desse jeito, na próchima eleição num vamu votar neis de jeito nenhum, uai sô, a gente é ingnorante, mais tem sangre nas veia, iguarzinhos o sangre deis, num tem diferença ninhuma. Rapais num é qui eu fiquei pensano nus pulíticu e esquici o qui eu vim fazer aqui, peraí sô".

A noite estava negra e tudo se fazia silêncio. De repente, o caboclo ouviu um barulhinho nas folhas secas do chão, assim como se fossem folhas sendo remexidas, e o barulho foi se aproximando e ele percebeu que já estava bem ali em baixo, juntinho das espigas de milho, pelo jeito se tratava de uma paquinha. O caboclo, com muita calma, lançou mão da pica-pau e, com os olhos atentos, direcionou o cano na direção das espigas, respirando fundo... Quando ele ia acender a lanterna, acoplada ao cano da espingarda, ouviu um espirro espremido, daqueles que não podia acontecer, de jeito nenhum... O caboclo recolheu a espingardinha sem fazer barulho, juntou tudo na matula, atentou para um certo 'zum zum zum' e pensou:
"Meu Deusu, é os homi da frorestar qui tão aqui. Bão, se eis tão vino do lado esquerdo, então eu vô ficar deitado nu chão até eis passar, dispois eu mi levanto e caminho no rumo qui eis vinhéru. Desse jeito, nóis vai ficar longe. Aí, eu apruveito pra escapar..., às veis da certu, às veis num dá..., mas u'a coisa é certa, eis nunca mi pegaru..., tamém, quando cumecei caçar minhas paquinhas eis num tinha nem nascido".

Mais uma vez o caboclo conseguiu chegar à sua casa, sem ser interceptado pela fiscalização; todavia, aumenta sua preocupação, pois um amigo seu foi surpreendido, logo depois de ter acertado o tiro na caça..., não deu tempo nem de descer do jirau.
"O susto foi tum grande que ele quase qui borro nas carça, puis do meio do nada apareceru us homis de bota cumprida". O amigo foi levado lá pra delegacia de Polícia Federar, onde fizeru um tar fragante por crime ambientar e falaru que era ... acuma se diz... inafiançávi. Ainda bem que dexaru usar a tar de justiça que é di graça i imprestaru inté o adevogado... e foi aí, por causa tar de liberdade provisória, que ele podi ir pra casa. Mais o pior memo é qui meu amigo e os outro tomem vê o crarão nu céu e qui os bichinho tão morrenu açado, mais o probrema é qui só ele vai responder pra dona justa. Otro dia, troquei um dedo de prosa com ele, i nesse dia ele choro pur dimais da conta sô, e mi falô anssim: pur que só nóis pobre é que fica preso ? "

Na verdade, a circunstância é constrangedora, uma vez que muitos desses caçadores cumprem um ritual imposto pela cultura e, às vezes, imposto até pela própria fome... Entretanto, a maioria dos cidadãos sabe que a lei deve ser cumprida. Da mesma forma, os seus efeitos a todos devem também atingir... Mas há incoerências... senão, vejamos: O caboclo não pode, de forma alguma, abater um animal silvestre, mesmo que seja por força da necessidade..., enquanto que o grande empresário, do agronegócio, pode e mais..., tem um prazo de trinta anos...

Nesse ponto, o caboclo pode perguntar:

"Mais e essa tar de carta magna, num foi feita pra protege nóis"?

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