segunda-feira, 25 de maio de 2009

Fazenda do esqueleto


Egroj Ominoreg Otilopih completava 80 anos de idade em 2.032 e continuava lúcido, forte e ágil. Todavia, percebia-se estar muito infeliz. Por quê? Bem, durante toda a vida empreendeu e se considerava o todo poderoso. Comprou inúmeras fazendas e nelas investiu sem medo de errar. Ao longo do tempo foi homenageado por dezenas de legislativos municipais e isso decorria, principalmente da geração de empregos. A legislação ambiental ficara a margem das suas convicções, pois sem sombra de dúvidas, essa, não foi sua principal preocupação. Desmatou o quanto quis e autuado fora tantas e quantas vezes fizera necessário. A manutenção de um jurídico altamente qualificado possibilitava impetrar recursos, o que culminava inúmeras “vitórias”. Notadamente, por causa das brechas da própria legislação.
Entretanto, durante todo o tempo se ouvia falar sobre a escassez da água, esterilidade do solo, bem como o fenômeno da desertificação. Ouviu-se também e muito sobre a qualidade de vida das futuras gerações. Nesse caso, obviamente, os seus netos e bisnetos estariam envolvidos. A infelicidade do empreendedor decorria de vários fatores. Por exemplo, há muito tempo a nascente do Córrego do Esqueleto havia secado e mesmo algumas chuvas esparsas não faziam aflorar nem mesmo uma simples gotinha d’água. Plantar cana-de-açúcar nem pensar, pois a Usina do Esqueleto que também lhe pertencia estava impedida de funcionar, vez que não havia como captar água do Aqüífero Guarani, esse havia se distanciado em face da demanda (outorgas). A pecuária de confinamento se fazia impossível diante da impossibilidade de se produzir matéria orgânica própria para a silagem. O mercado de rações se encontrava pela hora da morte, provavelmente por causa da alta procura.
Na frente da sede da fazenda, todos os dias, dezenas de ex-empregados (refugiados ambientais) faziam fila na esperança de se conseguir novo emprego. O senhor Egroj, do hall superior reconhecia muitos deles e se lembrava das quantas vezes os dispensara por conta das entressafras - constatava que naquele momento não havia safra e nem entressafra. O que fazer, pensara o senhor Egroj? Bem, poderia recuperar as matas ciliares do Córrego do Esqueleto, elas fariam retornar a água no seu curso. Mas onde encontrar as sementes das árvores típicas da Fazenda do Esqueleto, se ninguém criou um banco de sementes. E mesmo que encontrasse como irrigá-las, se a água que ainda conseguia era a dessalinizada - o município entregava uma vez por mês e de forma racionada. A lembrança das quantas vezes o Córrego do Esqueleto transbordara, produzia saudades. Destarte, muitos transbordamentos ocorreram em decorrência do assoreamento, esse, fruto da não conservação do solo e dos desmatamentos.
E agora senhor Egroj, onde os seus netos e bisnetos poderão empreender? Eles, pelo que o senhor mesmo vê, herdarão suas terras, no entanto, elas de nada servirão e, infelizmente, nem todo o seu dinheiro será capaz de recriar a condição natural que Deus lhe concedeu. Entretanto, senhor Egroj, o Criador tem consciência de que o senhor não conseguiu preservar por causa da ausência de educação, com relação ao meio ambiente. Assim, quem sabe se de repente, um pedido de perdão ao dono desse mundo maravilhoso possa permitir a recuperação ambiental, ao mesmo tempo em que os seus netos e bisnetos também possam chegar aos oitenta e, conseguintemente, num futuro mais distante, eles possam oferecer aos descendentes a mesma condição de vida.
Vamos lá senhor Egroj olhe para o alto e seja humilde, pois é de lá que somos observados. Aliás,  ninguém poderá sacrificá-lo e condená-lo. O CRIADOR desse mundo maravilhoso é somente bondade e ficaria feliz se o senhor dissesse : “Senhor meu Deus perdoe-me pelos erros que cometi, eu conhecia, mas não compreendia”. ELE lhe responderia: Egroj, ainda há tempo acredite em você e comece a recuperar tudo o que destruiu nos últimos tempos e saiba que EU estarei sempre ao teu lado. Vamos lá, pois flora e fauna sempre estiveram repletas das mais variadas formas de vida, essas, iguais a sua e com os mesmos direitos. Vamos lá, de um primeiro passo nessa mudança de comportamento!

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