domingo, 26 de abril de 2009

Nosso querido Rio Grande

Arquivo: 4ºBPamb.


Certa vez, efetuávamos policiamento ambiental no Rio Grande, de um lado o município de Ícem, do outro o município de Fronteira e à frente a Barragem de Marimbondos. As comportas abertas produziam volume imenso de água e do ponto em que estávamos, avistávamos uma embarcação, exatamente por onde saem ás águas. O barco, normalmente, é daquele pescador que subsiste da pesca, mas não tem consciência para preservá-la, assim, para subsistir, desobedece à lei. Lei essa, que deve ser cumprida, para isso estávamos lá a bordo de uma embarcação da classe recreio, com sete metros de comprimento por quarenta centímetros de borda. À popa, um motor de vinte e cinco HPs, sem capô (tampa) e um barulho ensurdecedor. Detalhes: em outras regiões do Brasil, essa embarcação é conhecida como voadeira, aqui no sudeste a denominamos como “Jesus está chamando”, isso em face do risco de morte que se enfrenta em águas revoltas. Bem, mas vamos ao que interessa, visto que o pescador se encontrava em área interditada e praticando pesca predatória.

Decisão tomada iniciava a subida com destino ao imprevisível. A velocidade da água era grande e o cuidado devia ser dobrado, pois a segurança era fundamental. Assim, seguimos rio acima com acelerador ao máximo e o sem tampa de goela aberta cortando as águas "quase azuis". O meu companheiro posicionado junto à proa. No cruzamento com o famoso braço morto, o espaço era pequeno o que fazia aumentar a velocidade da água. Nesse ponto, eu deveria reduzir a velocidade da embarcação e, ao mesmo tempo, virar a bombordo e seguir avante, depois novamente a bombordo.

O risco era grande, visto que o canal que seguíamos terminava em T. Apenas para se ter idéia teria que deixar um espaço de 30 (trinta) metros de largura por um espaço de 10 (dez) metros. Lembrando ainda que quase toda água que saia das comportas passava por esse espaço (canal) de 10 (dez) metros. Como a boreste o braço era morto à água ia por cima e voltava por baixo, automaticamente, produzia um redemoinho (rebojo) que ora afunilava (implodia) para depois estourar (explodir), assim, não dava para passar nem no primeiro momento e muito menos no segundo. O que fazíamos? Esperávamos entre um momento e o outro, onde por alguns segundos havia estabilidade (água lisa) para então virarmos a bombordo.

Tudo isso foi feito e nos dirigimos em direção ao grande paredão, fruto da inteligência humana e das novas tecnologias. Quando nos aproximávamos do paredão com todas as comportas abertas percebemos que a água fazia ondas enormes. Detalhe, a embarcação estava leve e ao transpor uma das ondas a proa foi bem no alto, oportunidade em que vi meu companheiro nas alturas, despencar-se para a popa. Por frações de segundos, pensei em parar, porém não era possível. A embarcação valente arrebentava as ondas que vinham de encontro e espalhava água para todos os lados. Gradualmente fui desacelerando o motor e meu companheiro se ajeitando na proa ainda um pouco assustado e pálido. E sob o balanço das águas nossa embarcação parava paralelamente ao barco do pescador. Esse, não fugiu, pois sua rede de pesca havia se enroscado na hélice do seu motor de popa.

Curioso que em meio a um turbilhão de água havia um pequeno remanso e ali estávamos. O pescador era conhecido de longa data e os seus dados já constavam em nossos arquivos. Ato contínuo, nós recolhemos duas redes de nylon duro que mediam mais ou menos 50 metros de comprimento cada, por 4 metros de altura e malhas de 240 mm. Junto com as redes encontramos dois pintados que deveriam pesar entre 08 e 10 quilos cada, esses ganharam a liberdade o que na verdade mereciam, uma vez que ficaram valentes enquanto eram retirados das malhas.

Posteriormente, em terra firme confeccionamos o auto de infração no conhecido e corajoso pescador. Cumpre ressaltar: o que contei foi apenas uma das ocorrências que vivenciamos no tão querido Rio Grande, porém, o mais impressionante foi olhar para aquele paredão (barragem) imenso, sentir o coração bater apressado e pressentir que algo poderia sair errado. A adrenalina explodindo diante do imprevisível e, por que não, diante do poder que o Criador deu aos homens. Infelizmente, alguns homens não se dão conta, ou não têm idéia do quanto esse mundo é maravilhoso e do quanto o Rio Grande é fantástico. E também não se dão conta de que ao preservar a natureza estarão preservando a própria vida. Nesse momento (agora) em que relato a história sinto um nó na minha garganta, uma vontade enorme de deixar as lágrimas rolar, por me sentir impotente diante do poder que o homem tem de não compreender a natureza. As águas do Rio Grande, por exemplo, num certo dia foram límpidas e cristalinas, hoje estão ficando sujas por conta do desrespeito de alguns humanos que não podem ser considerados selvagens, mas também não civilizados.


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