segunda-feira, 30 de março de 2009

Entrevista

ENTREVISTA:
Perguntas: Jorge G Hipólito
Respostas: Túlio C Alves O Alves

Comandante Túlio, como o senhor classifica hoje, a realidade ambiental do Rio Grande do Norte?

O Rio Grande do Norte não vem fugindo a regra dos demais Estados Brasileiros, ao adotar um modelo de Crescimento Econômico que na prática não leva em consideração o texto constitucional ora em vigor. Inúmeros casos de desrespeito à legislação ambiental registram-se ano a ano sem que se possa perceber uma vontade política de reverter o quadro de degradação ambiental hoje já preocupante. O Estado precisa urgentemente adotar um modelo de crescimento de sua economia baseado em sua própria vocação natural: O Turismo. Com quase 400 km de litoral, esse sim deve ser o principal vetor econômico, aliado a produção energética oriunda de fontes limpas como a energia eólica.

Considerando que a nossa cultura nos fez herdar dos nossos ascendentes um comportamento, onde não havia preocupação com a preservação ambiental, o senhor acredita ser possível mudar tal comportamento?

Nós que fazemos parte de um seleto grupo que tem por força da função que exerce, nunca desistir, pois, somos servidores públicos de carreira voltados para o trabalho de proteção ao Meio Ambiente, jamais poderemos nos deixar abater. Desde que assumi essa função aqui em meu Estado, sempre tive esse pensamento, apesar das inúmeras barreiras que venho enfrentando para cumprir meu dever de ofício, acredito piamente na mudança de comportamento do ser humano em relação à natureza.

Considerando que na Eco-92 foi instituída a “Agenda 21” para todos os povos, qual teria sido a maior dificuldade em implantá-la no seu estado e, por conseguinte, a “Agenda 21 Local”?

Acredito que pela descontinuidade de compromisso dos gestores públicos, que ao se revezarem no poder não dão continuidade aos protocolos estabelecidos, havendo, pois, quebra na implementação desse importante instrumento referencial que estabelecido em nível mundial, conta com grande participação popular, política e técnica-científica.

Na “Agenda 21” há destaque para a “Educação Ambiental”, como a polícia ambiental potiguar a desenvolve?

Com muito esmero desenvolvemos dois programas de sucesso: Os Guardas Mirins Ambientais, que em três anos de criado já atendeu cerca de 600 adolescentes oriundos das camadas mais desfavorecidas da Capital, bem como no último ano, estendeu suas atividades para o interior do Estado, na cidade de Parelhas em pleno sertão do Seridó Potiguar, área em processo de desertificação. O outro programa é o Segurarte, ensinando a respeitar a natureza através da arte, programa esse que despertou o interesse da comunidade Sheiso no Ie, que já manifestou interesse em associar-se ao programa, através de suas oficinas e poder de divulgação mundial.
No Brasil, todos os dias ocorrem crimes ambientais, alguns mais outros menos, no seu Estado quais predominam?
A extração ilegal de areia, o lançamento de poluentes em rios, o comércio ilegal de animais silvestres, a poluição sonoras, visuais e atmosféricas, seguidas de construções irregulares em dunas e descumprimento de licenças ambientais, desmatamento e queimadas.

Qual a expectativa que o senhor tem quanto à possibilidade da efetiva conscientização ambiental da sociedade?

Que em alguns anos, talvez vinte ou trinta, poderemos viver num mundo socialmente justo, com uma qualidade de vida bem melhor.

As ONGs, bem como as OSCIPs com perfil ambientalista têm produzido efeitos positivos quanto à preservação ambiental ou ficam na teoria?

Algumas delas têm cumprindo seu papel, denunciando e mobilizando a comunidade em torno de interesses ambientais coletivos, o SOS mangue, a SOS Mata Atlântica, bem como a Sociedade de Amigos de Ponta Negra que tem feito um trabalho maravilhoso, culminando com paralisações de obras absurdas como os espigões do Morro do Careca, o principal cartão postal da Capital.
O senhor consideraria possível a implantação de viveiros de mudas de árvores nativas nos quartéis da polícia ambiental e se diante das dificuldades acredita que seria possível sugerir aos municípios para que aderissem à idéia e, dessa forma, juntos, propiciarem o atendimento da demanda frente à revitalização das matas ciliares?

Considero essa uma idéia sensacional e viável sob todos os aspectos, pois, reverter o quadro de degradação ambiental, passa obrigatoriamente pela recuperação das Matas Ciliares, essas importantíssimas para o equilíbrio hidrológico e faunístico do ambiente. Sendo assim, porque não a participação direta dos municípios, os beneficiários diretos dessa recuperação?

O senhor poderia informar qual a porcentagem de cobertura florestal do Rio Grande do Norte e se está se desenvolvendo algum projeto de reflorestamento de mata nativa?

O Rio Grande do Norte possui hoje 3,7% de seu território protegido através de Unidades de Conservação, número ainda abaixo da média nacional. Sua cobertura Florestal vem diminuindo a cada ano e poucos projetos estão em andamento. Conheço diretamente, apenas o que está se desenvolvendo no sertão do seridó, onde os insumos florestais são explorados para uso doméstico e Industrial. Esse projeto trabalha a técnica do manejo sustentável, mais ainda está em fase embrionária.
Como o senhor se sente na condição de comandante de uma organização tão relevante para a sociedade, principalmente, quanto ao aspecto educacional?

Às vezes muito feliz quando alcançamos metas e às vezes muito triste com a burocracia do Estado, mas, sempre consciente de que é necessário continuar pelejando, como aqui dizemos, pois, dessa peleja muitos benefícios haverão de ocorrer, sendo deles beneficiários a presente e as futuras gerações de Potiguares.

Um comentário:

Jorge Geronimo Hipolito disse...

Muito obrigado pela entrevista!
Eu percebo que no Rio Grande do Norte e em São Paulo existem dificuldades. Como superá-las? Bem, imprescindível a motivação, razão, aperfeiçoamento e integração. O MMA poderia desenvolver programa de integração das polícias ambientais. Dessa forma policiais dos quatro cantos, juntos e na prática, aprenderiam qual a melhor forma na busca por solução, ou seja, um aprenderia com o outro, assim, talvez, o esforço jamais seria em vão. Portanto, fica a sugestão.